Três Lagoas, 18 de Outubro de 2026
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CNI defende dessalinização para reforçar segurança hídrica da indústria

Estudo destaca a tecnologia como alternativa para garantir a continuidade da produção diante das mudanças climáticas

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Brasil 61

CNI defende dessalinização para reforçar segurança hídrica da indústria
Foto: Letícia Carvalho/CNI|Créditos: Brasil 61

A dessalinização da água do mar pode reduzir  riscos operacionais, assegurar a continuidade da produção e fortalecer a sustentabilidade do setor produtivo. É o que defende a Confederação Nacional da Indústria (CNI) em estudo apresentado durante o Congresso ALADYR Brasil 2026, realizado pela Associação Latino-Americana de Dessalinização e Reúso de Água, em São Paulo. 

Intitulada "Segurança Hídrica Industrial: O Papel da Dessalinização no Brasil", a publicação analisa o estágio de desenvolvimento da tecnologia, os custos de implantação, os impactos ambientais e as oportunidades de financiamento para ampliar a segurança do abastecimento de água no setor industrial.

A dessalinização consiste na remoção de sais e outros minerais da água do mar ou salobra, tornando-a adequada para diferentes usos, inclusive o consumo humano e as atividades produtivas. A técnica mais utilizada atualmente é a Osmose Reversa (OR), processo em que a água passa sob pressão por membranas semipermeáveis que retêm sais e outras substâncias dissolvidas.

Para o diretor de Relações Institucionais da CNI, Roberto de Oliveira Muniz, a segurança hídrica tornou-se um fator estratégico para a competitividade industrial.

"Para a indústria, a água deixou de ser apenas uma pauta ambiental e passou a ser uma variável estratégica, que define onde se investe, como se produz e se a operação resiste a uma crise. Reúso e dessalinização são respostas concretas de adaptação à mudança do clima", afirma.

O gerente de Recursos Naturais da CNI, Mário Cardoso, explica que a água é um insumo essencial para a atividade industrial, utilizada tanto como matéria-prima quanto nos processos de produção, como resfriamento, lavagem e geração de vapor. A falta do recurso pode levar à redução do ritmo de produção ou até à paralisação das fábricas, com impactos que se estendem por toda a economia.

“Quando a fábrica para, quem sente primeiro é o trabalhador, depois a cadeia de fornecedores e o município”, afirma. Segundo Cardoso, mesmo antes de um eventual desabastecimento, a insegurança hídrica já eleva os custos das empresas, que precisam recorrer a caminhões-pipa, buscar fontes emergenciais de captação e manter estoques para evitar interrupções.

O gerente também alerta para os efeitos da escassez de água sobre o setor elétrico. No Brasil, a dependência da geração hidrelétrica faz com que as crises hídricas também possam comprometer a produção de energia, ampliando os riscos para a atividade econômica.

“Com eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, ter água garantida passou a ser fator de competitividade. O investidor escolhe onde instalar uma fábrica, olhando também para a segurança hídrica. Por isso, a CNI trata o tema como estratégia de adaptação à mudança do clima, e não apenas como uma questão ambiental”, afirma.

Mudanças climáticas ampliam desafios para a segurança hídrica

Mário Cardoso apresentou o estudo a especialistas latino-americanos durante o painel “Mudanças climáticas e segurança hídrica: desafios para a economia latino-americana”. O debate contou com a participação do assessor da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), Tibério Pinheiro, e foi moderado pelo diretor da ALADYR, Eduardo Pedroza.

Na apresentação, Cardoso destacou os impactos dos eventos climáticos sobre a população e a economia brasileira. Segundo o Atlas Digital de Desastres no Brasil, eventos climáticos atingiram 83% dos municípios do país entre 2014 e 2023, afetaram 177 milhões de pessoas e provocaram prejuízos de R$ 421 bilhões.

Os efeitos econômicos podem ser ainda maiores no longo prazo. Um estudo do Ministério do Planejamento e Orçamento, elaborado no âmbito da Estratégia Brasil 2050, estima que a falta de medidas para enfrentar as mudanças climáticas pode custar até R$ 17,1 trilhões ao Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro até 2050, além de eliminar 4,4 milhões de empregos.

Na América Latina, cerca de 150 milhões de pessoas vivem em situação de escassez hídrica, segundo relatório do Banco Mundial.

No Brasil, apesar da disponibilidade hídrica elevada em termos agregados, a distribuição da água é desigual. Segundo a ANA, a Região Hidrográfica Amazônica concentra cerca de 81% da disponibilidade de águas superficiais do país, enquanto o semiárido nordestino enfrenta escassez recorrente.

Nesse cenário, a indústria precisa buscar alternativas para reduzir a dependência de fontes convencionais de abastecimento e enfrentar períodos de restrição hídrica. Dados do relatório Conjuntura dos Recursos Hídricos no Brasil 2025, da ANA, indicam que a demanda de água do setor industrial chegou a aproximadamente 175 m³/s em 2025.

Tecnologia avança e reduz custos de dessalinização 

O estudo da CNI destaca os ganhos de eficiência da Osmose Reversa nas últimas décadas. O consumo de energia necessário para dessalinizar a água, que inicialmente podia chegar a 20 quilowatts-hora por metro cúbico (kWh/m³), caiu para uma faixa de 2,0 a 4,0 kWh/m³ nas instalações modernas de grande porte.

Apesar dos avanços tecnológicos, a eletricidade ainda representa entre 40% e 60% dos custos operacionais de uma usina de dessalinização. No Brasil, os custos de produção de água para uso industrial variam, conforme os parâmetros apresentados no estudo, entre US$ 0,50 e US$ 0,80 por metro cúbico.

Já o investimento médio global em projetos de dessalinização de grande escala é estimado em aproximadamente US$ 900 por metro cúbico diário de capacidade instalada.

A localização da população e dos polos industriais também favorece a avaliação da tecnologia como alternativa de abastecimento. Cerca de 111,27 milhões de brasileiros, o equivalente a 54,8% da população, vivem a até 150 quilômetros da costa, onde também estão concentrados importantes centros industriais.

No entanto, a proximidade do mar não elimina os desafios relacionados ao custo da energia, à infraestrutura necessária e aos impactos ambientais do processo. Por isso, a viabilidade dos projetos depende das características de cada região e das necessidades de consumo de água.

Fundo Clima pode financiar projetos industriais

Para estimular a implantação de novos projetos, o estudo destaca a disponibilidade de linhas de crédito do Fundo Clima – Indústria Verde, operado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Segundo a CNI, além do acesso ao financiamento, o avanço da dessalinização depende de maior segurança jurídica para os investimentos. Entre os pontos que precisam de clareza estão as regras de licenciamento ambiental para o descarte da salmoura — resíduo concentrado em sais gerado no processo — e a tributação de equipamentos e insumos utilizados nas instalações.

A definição dessas condições pode contribuir para reduzir incertezas e ampliar a escala dos projetos no país.

Desafios para a dessalinização

Segundo Mário Cardoso, o principal entrave à expansão da dessalinização no Brasil não é tecnológico nem financeiro, mas regulatório.

“A tecnologia já está madura e já funciona no Brasil em algumas situações. O custo de operação para a indústria já é competitivo e existe financiamento pelo Fundo Clima no BNDES. O que falta é segurança jurídica. Não temos regras nacionais claras para o licenciamento das usinas, nem para o descarte da salmoura”, aponta.

De acordo com Cardoso, a falta de diretrizes claras faz com que cada projeto seja avaliado de forma isolada, o que pode prolongar os processos de licenciamento e aumentar a incerteza para os investidores. Esse cenário, segundo ele, dificulta a expansão da tecnologia no país.

Para as pequenas empresas, uma das alternativas é investir em soluções compartilhadas. Segundo o gerente da CNI, distritos e polos industriais podem implantar centrais de reúso de água para atender a várias empresas, dividindo os custos de investimento e operação.

“A pequena empresa também pode comprar a água como serviço. Ela paga pelo metro cúbico entregue e não precisa imobilizar um capital na planta”, afirma.

Outra medida é adotar regras de licenciamento proporcionais ao risco ambiental de cada iniciativa. “Uma empresa que reaproveita a própria água dentro da fábrica, sem impacto para ninguém, não deveria enfrentar a mesma burocracia de um grande projeto. Regra simples também é redução de custo”, defende Cardoso.

O gerente também destaca a importância de ampliar o acesso ao crédito para pequenas e médias indústrias, com linhas de financiamento de menor valor, operadas por bancos regionais e instituições financeiras parceiras. Além disso, o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) pode contribuir com diagnósticos e assistência técnica para identificar oportunidades e orientar a implementação de soluções de reúso de água.

Projetos brasileiros demonstram viabilidade da tecnologia

O levantamento da CNI reúne experiências nacionais de dessalinização para diferentes finalidades, desde o abastecimento de grandes complexos industriais até o fornecimento de água potável para comunidades rurais.

Entre os exemplos apresentados estão:

  • ArcelorMittal Tubarão (ES): maior usina de dessalinização de água do mar do Brasil, recebeu investimento de R$ 50 milhões e possui capacidade inicial de 500 m³/h (suficiente para abastecer 80 mil pessoas). A planta conta com sistema de recuperação de energia de alta pressão que reduz em 50% o consumo elétrico e realiza o descarte de salmoura diluído no canal de água do mar da própria usina (800 m³/h diluídos em 48.000 m³/h). 
  • Fortaleza (CE): Parceria Público-Privada (PPP) de 30 anos com a Cagece e o Consórcio Águas de Fortaleza, envolvendo R$ 3,1 bilhões em valor total e R$ 526 milhões em investimentos diretos para construir uma usina com capacidade de 1 m³/s (31,5 milhões de m³/ano). 
  • Fernando de Noronha (PE): O investimento de R$ 22 milhões da Compesa na usina do arquipélago gerou um ganho de 85,7% na receita da concessionária e acabou com o racionamento hídrico na ilha. 
  • Programa Água Doce (PAD): Focado no semiárido, atende mais de 200 mil pessoas em comunidades rurais. Em pregões recentes da Codevasf, foram contratados sistemas comunitários de 400 L/h com custo unitário de instalação entre R$ 423 mil e R$ 445 mil. 
  • Ilhabela (SP): Projeto da Sabesp com capacidade para 30 L/s, que aumentará em 22% a oferta de água potável para cerca de 7.000 famílias, com previsão de início de operação em 2026. 
  • CPFL (RN): Sistema fotovoltaico integrado à dessalinização que leva água potável a mais de 800 famílias no semiárido potiguar.

CNI amplia agenda de reúso de água e adaptação climática

O estudo sobre dessalinização integra uma estratégia da CNI voltada à segurança hídrica industrial, iniciada em 2017. Em parceria com federações industriais e o Centro Internacional de Referência em Reúso de Água da Universidade de São Paulo (Cirra/USP), a entidade já produziu dez estudos sobre o reúso de efluentes.

As projeções reunidas pela confederação indicam que o Brasil pode ampliar em até 13 vezes sua capacidade de reúso industrial. Para isso, seriam necessários investimentos estimados em R$ 1,89 bilhão, com potencial de gerar retorno econômico direto de R$ 5,9 bilhões para o setor.

A iniciativa também resultou na elaboração de um manual metodológico para avaliar a viabilidade do reúso industrial em países da América do Sul, lançado recentemente pela CNI.

Outra publicação da entidade é o Guia da Indústria para Adaptação à Mudança do Clima, lançado em 2026. O material reúne diagnósticos, metodologias e medidas práticas para orientar empresas na identificação de riscos climáticos e na adoção de estratégias de adaptação.

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